O prazer e o conhecimento

Adentrar em um universo alheio ao que se está, acompanhar pessoas, ideias e histórias, muitas vezes, avessas ao que se acredita, observar vivências pessoais de alguém que não se conhece, ver e ouvir pontos ligados à intimidade de um ser e se deliciar com cada momento. Observar em busca do prazer. Sim, falo, aqui, do observador/espectador cinematográfico em seu ponto inicial, que é sua curiosidade de voyeur, que alcança um gozo ao observar o outro.

Um acompanhar que envolve os sentidos da visão e da audição, que proporciona um prazer que vai além do que o próprio espectador possa catalogar. Diferente do gozo sexual, segue caminhos que não conseguem se repetir, mas também preenche razões momentâneas que podem se estender a longo prazo, cria vínculos passionais e engaja razões que ultrapassam barreiras físicas e sociais.

Ao apreender determinado momento alheio, aquele que observa o externo, pode se engajar no que é inerente ao seu próprio ser e estar.

E como a dor também pode se transformar em uma forma de deleite, há aqueles que buscam observar a notoriedade do passivo, do gestual agressivo, da extrema catarse violenta e da explicitação de um ato de tortura. A aversão ao ativo também existe na concepção ideológica, na construção de pudores e na reafirmação de pré conceitos pré estabelecidos socialmente. Há um vínculo entre o agir e o ser o objeto de ação, que o observador casa em sua memória, conflitando pudores e desejos.

Esse flerte existente com a tela possibilita a aproximação do espectador com aqueles que ele não pode tocar, mas ao qual se sente apoderado por, como se houvesse estabelecido um processo de encantamento e conquista. Uma proximidade que se estabelece no ver e que possibilita a concretização de desejos, o despertar de outros, a criação de estímulos controversos e até contrários aos que o observador se acostumou. O tatear estabelecido pela imagem e som, proporciona o deleite , o envolvimento que leva a diversos momentos de apreensão e apreciação, onde toda a experiência se transforma em gozo.

Não encare esta leitura como algo ligado a aparatos sexualizados, apenas como uma forma de ver os aspectos que englobam essa simples frase: “você vê, e gosta do que vê!”.

Assim com toda a experiência de compreensão cinematográfica, o espectador, aquele que se põe diante de uma história, devora a tela de uma forma encantadora, que, aos poucos, aquele que estuda e critica pode perder. Aonde está o prazer do olhar ao se destrinchar sobre uma escrita crítica? Como fomos perdendo nossa inocência encantadora ao nos depararmos com aquelas narrativas? Pensar o cinema não pode fugir do encanto, mas, assim como o homem amadurece em suas relações interpessoais ao longo dos anos, o crítico e o estudioso cinematográfico deve olhar de forma madura, mas não com um desejo abalado, e é neste desejo que se encontra a inocência.

Ver sem se focar na podridão do todo, mas sem descartar sua existência. Existem propostas fílmicas aquém e além do prazer, onde o crítico deve, de certa forma, se entregar ao seu voyer amadurecido e desencantado, dando-lhe uma segunda chance de manifestação. Onde o prazer possa se manifestar com o conhecimento, são essas críticas que busco e são essas leituras que eu defendo.

*texto de Paty Louzada, originalmente em: Sem Açúcar

Um cinema do ordinário

Para abrir esta coluna, buscamos alguma obra cinematográfica ficcional, que tenha sido realizada nos últimos dez anos, que reflita, de algum modo, assim como nos primeiros filmes dos Lumière, o cotidiano. Obviamente, tal obra, deveria abranger o tema de forma crítica e flexiva.

 

“O Pântano”, dirigido e roteirizado por Lucrecia Martel, encaixou como uma luva em tal proposta. Logicamente, para realizarmos uma reflexão básica sobre todos aspectos deste filme, teríamos que nos estender por mais algumas postagens. Como apresentado anteriormente, nosso foco aqui se dá apenas nas questões ordinárias do cotidiano.

Como diversos outros autores já discorreram sobre a obra em questão, relembrando como esta é trabalhada de forma primorosa na mise en scène, na montagem e em diversas outras etapas relativas à construção cinematográfica, nosso olhar aponta para os personagens, e como se fazem através de uma história do comum, do cotidiano, do banal. Seres que incorporam pensamentos, emoções e reações, atravessam uma narrativa do ordinário.

Sem realizarmos uma análise cena a cena, ou mesmo extremamente aprofundada, podemos levantar aspectos gerais e fundamentais para a apreciação de detalhes orquestrados na fundamentação emocional das personagens. Seriam estes baseados no viver diário, naquilo se passa despercebido, mas que estrutura até o nosso próprio cotidiano. Há uma exposição do ambiente e da fragilidade dos indivíduos, como barreiras que instigam o espectador a adentrar naquele universo. Lá se desenvolve o frágil, o incompreensível, o infantil, a passividade, o não conhecer-se, um vazio sentimental e a não redenção. As camadas emocionais são exploradas sem serem explicitadas.

Há significativos detalhes que recobrem toda a narrativa. Questões como possíveis desejos, acidentes que propiciam reencontros, perdas que atravessam os lares, diálogos estabelecidos pelo telefone, a fé católica e seus conflitos, as relações da imprensa com a sociedade, o céu nublado, os ambientes pouco iluminados, tiros que se ouve e não se vê, animais expostos, os pimentões vermelhos, o morro, cigarras, uma música, um barulho da porta de um carro e de passarinhos, as cores da Bolívia narradas ao telefone, os cabelos sujos de Momi, a bebida alcoólica, a embriaguês, o vidro sujo dos carros, as águas apodrecidas e os sonhos inalcançados. Tudo lá está colocado de forma que pareça superficialmente banal, porém, tudo é, na verdade, profundamente revelador.

Cada pequena pista comportamental e espacial revela um pouco sobre aqueles homens e mulheres, que são o que são e ponto. Em poucos se pode ver o desejo de mudança que, quando nasce, é alimentado e brutalmente podado. Indivíduos que se recobrem com um descaso e que passam por infortúnios naquela sua forma opaca de se viver.

Com cores repartidas, ou contos imaginários que alimentam mentes e amedrontam a infantilidade, suposições religiosas que acalentam e que congelam esperanças, estão estacionados perante a própria imagem ou fugitivos desta.

Fatores externos e internos que se retroalimentam são caminhos e apontam extensões daqueles seres. Testemunhas de uma trajetória sem redenção, sublimação, escândalos ou ocorrências extraordinárias, as personagens estão em tudo que as cercam, sejam as árvores, o vinho, a chuva, o sangue, os sons, a Santa, os humanos, os desejos, as águas, a opacidade, a morte, a tensão, os descuidos ou o passado. São eles consequência e causa de tudo que se mostra na imagem. Desaparecerão como os sons que os cercam. Brutos, firmes, intensos, cheios de significado, trazem suspeitas e incertezas, mas são, acima de tudo, temporários.

 

Obviamente cada espectador absorverá um ponto, cada questão poderá trazer uma leitura diversa, porém, buscamos aqui, apresentar um viés, uma abertura, um caminho para uma leitura possível. Não hesito em recomentar que se veja e reveja o filme, que, acima de qualquer rótulo, é uma criação cinematográfica promissora no quesito interpretação.

*texto de Paty Louzada, postado anteriormente em: Sem Açúcar